Liturgia

INTRODUÇÃO GERAL A LITURGIA[i]

  Manoel Lima de Oliveira

 LITURGIA = (“LEITON-ÉRGON” – ação do povo, melhor, ação em favor do povo) do grego ÀEITOUPYÍA, “serviço” ou “trabalho público”.

 RAIZES: LEIT (de “Laos”, povo) e URGÍA (trabalho, oficio).

 O QUE É LITURGIA?

Hoje em dia a palavra Liturgia é bastante usada. Todos os cristãos sabem de certo modo por experiência o que é Liturgia. É o culto da Igreja; é uma vivência de fé, é uma forma especial de oração. Mas será mesmo que sabemos o que é Liturgia?

 Vamos Refletir:

 Não faz muito tempo que se usa a palavra Liturgia na Igreja. E mesmo uma reflexão aprofundada sobre o assunto só veio no século passado. Com isso não se quer dizer que antes os cristãos não vivessem a Liturgia da Igreja. Ela sempre foi considerada como culto oficial da Igreja.

Originariamente, toda ação gratuita de pessoas ou grupos em favor do povo em geral, como jogos olímpicos, jogos públicos, etc., era chamada liturgia.

Mais tarde, o culto oficial dos sacerdotes do Antigo Testamento em favor do povo foi chamado de Liturgia. Podemos dizer que o culto prestado por Cristo ao Pai a serviço dos homens, toda a obra da salvação, constitui uma Liturgia.

  • Na Bíblia dos 70 (LXX) – tradução grega da Escrituras – o vocábulo “Liturgia” é utilizado para designar somente ofícios religiosos pelos Sacerdotes Levíticos no “Templo de Jerusalém”, não se utilizava o termo para designar celebrações cristãs, com Cristo inaugurava-se um tempo inteiramente distinto do Templo e do Culto.

 Definição: compreende uma celebração religiosa pré-definida, de acordo com as tradições de uma Religião.

 Assim o culto oficial da Igreja que torna presente esse serviço de Cristo em favor do povo é chamado Liturgia. São os ritos da Igreja Católica como os Sacramentos. Além disso, temos outros ritos e cerimônias religiosas, como o Ano Litúrgico, a Oração comunitária, as Exéquias, as bênçãos e assim por diante.

Todos os cristãos têm certa experiência do que seja Liturgia, pois vivem desde a infância, mas se perguntarmos o que é mesmo Liturgia, muitas vezes, mesmos os mais esclarecidos ficam devendo uma resposta.

 Significado – Celebração do “MISTÉRIO PASCAL”.

 O QUE NÃO É LITURGIA?

A Liturgia não é simplesmente um conjunto de ritos edificantes que levam os cristãos a rezarem ou a contemplarem melhor. Se considerássemos a Liturgia apenas isso, estaríamos incorrendo nu conceito esteticista de Liturgia. Haveria então duas coisas paralelas: ritos belos e artísticos de um lado e devoção do outro. Papa Pio XII, na encíclica Mediador Dei, em 1947, já dizia que quem pensa assim tem uma idéia errada de Liturgia. Tal idéia ainda existe até hoje em dia na Igreja. Possuem-na aqueles que querem uma Liturgia bonita, como canto gregoriano, textos em Latim, paramentos tradicionais e assim por diante. Não quer dizer que a arte e a estética não tenham sua importância na Liturgia, mas Liturgia não é simplesmente isso.

Outros têm a seguinte idéia sobre Liturgia: Seria o conjunto de normas, leis e orientações promulgadas pela hierarquia da Igreja, que regem o culto oficial da Igreja. O Papa Pio XII diz que não eram menos os que pensam desta forma. Nesse grupo encontram-se os legalistas e rubricistas, que põem a Liturgia meramente na observância exata e escrupulosa de todas as normas e regras indicadas nas rubricas dos livros litúrgicos. Não quer dizer que não haja necessidade de normas e leis na Liturgia, mas Liturgia não é apenas isso.

 LITURGIA DENTRO DE UMA VISÃO TEOLOGICA

Odo Casel, grande liturgista, que morreu em 1948, definia a Liturgia como sendo o Mistério do Culto de Cristo e da Igreja. Temos aqui um conceito teológico da Liturgia. E dentro dessa definição aparecem quatro elementos importantes:

  • O mistério; veremos mais adiante em que sentido.
  • O Culto; que expressa o relacionamento profundo entre Deus e os homens.
  • Cristo; este conceito coloca Jesus Cristo no centro do culto.
  • Igreja; a Liturgia é uma expressão cultural da Igreja.

 Já vemos que não temos apenas belas cerimônias que despertam devoções. Ou normas que regem o culto, mas a expressão mais profunda do relacionamento do homem com Deus, por Cristo, com Cristo eem Cristo. CultuarDeussignifica cultivar Deus. A conceituação de Liturgia deve, portanto, ser situada a luz da vocação ultima do homem, vocação que se manifesta na História da Salvação.

Como vemos, Liturgia tem a ver com a Teologia e a revelação divina manifestado sobretudo nas Sagradas Escrituras.

 O MISTÉRIO

 Para melhor compreensão de Liturgia é importante que antes de tudo reflitamos sobre o que vem a ser mistério.

Falamos muitas vezes de mistério: mistério da Santíssima Trindade, o mistério da encarnação, o mistério da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, o mistério Pascal, o mistério do homem, os mistérios do Rosário, o mistério da Igreja e assim por diante. Vemos logo que usamos a palavra mistério em diversos sentidos. É um conceito muito rico em significado.

Segundo o dicionário, mistério é algo incompreensível, algo oculto, impenetrável à razão humana; coisa secreta. Significa também o culto ritual secreto de religiões pagãs.

Mistério no sentido da Liturgia não tem apenas esta conotação intelectual dada acima, mas é visto sob o aspecto da Economia divina da salvação.

Economia provém da palavra grega oikonomia (oikos + nómos) que significa a norma da casa, a administração da casa. É o plano de Deus em relação à sua família. Economia divina da salvação significa o plano que Deus tem em relação aos homens de fazê-los participantes de sua vida, de seu amor, da sua felicidade. Este plano se manifesta na História da Salvação.

Dentre os Mistérios temos:

v  Mistério de Deus;

v  O Mistério de Deus e a Vocação do Homem;

v  O Mistério se desfaz com o Pecado;

v  A Conversão;

v  O Mistério do Culto dos Pagãos;

v  A Páscoa-Fato do Antigo Testamento;

v  Páscoa-Rito ou o Mistério do Culto do Antigo Testamento;

v  Jesus Cristo, a Páscoa Verdadeira;

v  O Mistério e os Mistérios de Cristo;

v  A Igreja;

v  O Mistério e os Mistérios do Culto.

 DEFINIÇAO DE LITURGIA À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II

A partir das considerações feitas, temos agora condições de descrever a Liturgia. À luz da Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concílium do Vaticano II, podemos dizer que a Liturgia é uma ação sagrada pela qual através de ritos sensíveis se exerce, mo Espírito Santo, o múnus sacerdotal de Cristo, na Igreja e pela Igreja, para a santificação do homem e a glorificação de Deus (Cf. SC, n.º 7).

Cada elemento é importante:

  1. É uma ação sagrada. A Liturgia não existe em livros, mas na ação de uma comunidade que é a Igreja. Nesta ação age Jesus Cristo. A ação é sagrada, insto é, comunica com Deus: é uma ação, onde entra a fé e o amor de Deus.
  2. Através de ritos sensíveis. Nem tudo é Liturgia e nem a Liturgia esgota toda a comunicação do homem com Deus. Na Liturgia esta comunicação do homem com Deus por Cristo e em Cristo se faz através de ritos sensíveis, isto é, de forma sacramental. A salvação de Deus manifesta-se através de sinais.
  3. Se exerce o múnus sacerdotal de Cristo. Na ação sagrada da Liturgia é o próprio Cristo quem age; é Ele quem continua a realizar a obra da salvação, de modo que todos os homens possam viver a sua vocação sacerdotal.
  4. Na Igreja e pela Igreja. Quando dizemos na Igreja, queremos realçar que quem age é Cristo, a ação sagrada é de Cristo, é Ele o sacerdote principal. Quando dizemos pela Igreja, queremos acentuar que Cristo não age sozinho, mas está presente na e pela ação da Igreja. Quando a Igreja põe a ação sagrada, evocando o sacerdócio de Cristo, é Cristo quem está agindo na Igreja.
  5. Para a santificação do homem e a glorificação de Deus. São os dois aspectos, chamados também dois movimentos de cada ação litúrgica; o movimento de Deus para o homem, a santificação, e o movimento do homem para Deus, a glorificação.

Quando numa ação sagrada da comunidade cristã encontramos esses cinco elementos, podemos dizer que estamos diante de uma ação litúrgica.

 O RITO LITURGICO

 Definição: é uma sucessão de palavras, gestos e atos que repetidamente, compõe uma cerimônia (religiosa, na maior parte das vezes).

É um conjunto de atividades organizadas, na qual as pessoas se expressam por meio de gestos, símbolos. Linguagem e comportamento, transmitindo um sentido coerente ao RITUAL.

 Assim temos:

  • RITO – Fazer memória, repetição;
  • RITUAL – Conjunto de ritos (Batismo, Matrimônio, Bênçãos, etc.);
  • RITUALISMO – Quando nos preocupamos só com o rito, tornando-o frio, mecânico, sem interiorizar caindo em rotina;
  • RITUALIDADE – Quando somos envolvidos pelo rito, passa pelo corpo, mente e coração: é viver de fato o rito “Sinal Sensível”.

 A Ritualidade nos leva ao centro (Assembléia) da Celebração: “Mistério Pascal” – (DV n.º 21).


[i] BECKHAUSER, Alberto Frei. CELEBRAR A VIDA CRISTÃ, 9ª Edição, Vozes

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