Passos da Leitura Orante


Retire-se, faça silêncio, respire, tranqüilize-se…

Leia atentamente o Salmo… releia… preste atenção nas palavras, nas imagens, sublinhando com lápis o que chama atenção ou memorizando o texto. Não tenha pressa, nem busque resultado imediato… Deixe simplesmente as palavras ecoarem em seu coração…

Durante a leitura:

a) Preste atenção no texto em si: sua estrutura, a palavra ou palavras chaves, a situação do salmista ou da comunidade que está na origem deste salmo: sentimentos, imagem que tem de Deus, atitude de fé…

É importante, em algum momento, talvez antes da oração, recorrer a infor-mações de quem estudou mais a fundo o salmo e pode nos ajudar a alargar a consciência a respeito do sentido que está por trás das palavras e fornecer dados a respeito da época histórica a que pertence o salmo, o gênero literário, etc.

b) Observe a relação entre salmo e a experiência de Jesus: Se quando a Igreja ora e salmodia é o Cristo que ora (SC 7) e se “quem salmodia não o faz tanto em seu próprio nome, mas em nome de todo o Corpo de Cristo, e ainda na pessoa do próprio Cristo (..)” (IGLH n. 108), então é importante descobrir no salmo a própria voz do Cristo em oração. Identifique as palavras do salmo que traduzem a experiência de Jesus em sua missão, na relação com o Pai, na sua experiência de morte-ressurreição.

Preste atenção ainda na experiência humana sua, ou de outras pessoas que você conhece, colhendo do salmo a força das palavras que expressam o que você experimenta em sua vida. João Cassiano lembra que cada pessoa assimila os sentimentos dos salmos pela sua própria experi6encia (…) e não tanto pelo conhecimento vindo de alguma explicação, colhendo do texto a força das palavras, por ter experimentado na própria vida aquilo que está escrito nele. Deixe as palavras do salmo ecoarem no coração, entre no sentimento do salmista e de Jesus e deixe existir diante de Deus o mais profundo do seu coração. Acolha a força terapêutica da ação de deus que cura o coração ferido e reconstrói as ruínas…

Oração pessoal e celebração comum

Seguindo estes passos na oração pessoal, vamos nos familiarizando com o salmo, estabelecendo com ele, e através dele com Deus, uma relação de amizade e intimidade.

É o jeito que a liturgia nos educa quando propõe que recitemos ou cantemos o salmo pausadamente, de forma alternada, “prestando atenção ao sentido pleno dos salmos, especialmente ao sentido messiânico” (IGLH 109), “meditando, verso por verso, sempre disposto no coração a dar respostas, como requer o Espírito que inspirou o salmista e que move também os devotos preparados para receber a sua graça “(IGLH 104). Ou ainda, quando nos pede uma tal atitude que, “ao salmodiarmos, nossa mente concorde com nossa voz”.

Os diversos elementos que aparecem junto ao salmo na Liturgia das Horas ou Ofício Divino das Comunidades seguem a lógica destes passos, com uma intenção pedagógica: O título que precede o salmo ( na LH) ou a introdução ( no ODC) fazem referência ao contexto de origem do salmo; o versículo do novo testamento explicita a relação do salmo com Jesus; as antífonas acentuam algum aspecto do salmo em relação ao mistério celebrado, ajudando a compreender os diferentes sentidos do salmo nos diferentes momentos da liturgia; o silêncio e a repetição de algum verso depois da recitação comum dá espaço para a repercussão da salmo na vida; a oração sálmica atualiza o salmo em forma de oração cristã.

Meditação litúrgica do salmo 91
Penha Carpanedo

Salmo 91(90)

1- Tu que habitas ao amparo do Altíssimo,
e vives à sombra do Onipotente,

2- dize ao Senhor: “Meu refúgio, minha fortaleza,
meu Deus, eu confio em ti!”

3- Ele te livrará do laço do caçador,
e da peste destruidora.

4- Ele te cobrirá com suas penas,
sob suas asas te refugiarás,
seu braço é escudo e armadura.

5- Não temerás o terror da noite
nem a flecha que voa de dia,

6- nem a peste que caminha na treva,
nem a epidemia que devasta ao meio-dia.

7- Caiam mil ao teu lado
e dez mil à tua direita,
a ti nada atingirá.

8- Basta que olhes com teus olhos,
para ver o salário dos ímpios,

9- porque fizeste do Senhor o teu refúgio,
tomaste o Altíssimo como defensor.

10- A desgraça jamais te atingirá,
e praga alguma chegará à tua tenda,

11- pois ele ordenou aos seus anjos
que te guardem em teus caminhos;

12- eles te levarão em suas mãos,
para que teu pé não tropece numa pedra;

13- caminharás sobre cobras e víboras,
pisarás leões e dragões.

14- Eu o livrarei; porque a mim se apegou,
eu o protegerei, pois conhece o meu nome.
Ele me invocará e eu responderei.

15- Na angústia estarei com ele,
eu o livrarei e o glorificarei;
16 Vou saciá-lo com longos dias
e lhe farei ver a minha salvação.

Algumas informações sobre o salmo 91

O salmo 91 é bastante conhecido e usado. Muitas pessoas se identificam com este salmista perseguido e refugiado no templo de Deus, à espera de uma palavra de salvação. Lembro de Cinira, uma moradora de rua que falava deste salmo com total familiaridade e o rezava de cor. Nosso propósito, nesta coluna, é oferecer elementos para favorecer uma maior aproximação entre a vida de hoje e o salmo vindo de outro contexto, de modo que se possa alargar o horizonte da nossa compreensão e da nossa oração.

1- Leitura do texto em si

  1. a) Como o salmo está estruturado?

    Olhando atentamente o salmo 91, podemos descobrir três momentos:

O primeiro é uma espécie de abertura (v.1-2). Alguém, ligado ao templo de Jerusalém, vendo a situação do refugiado, convida-o a depositar sua confiança em Deus, sugerindo uma fórmula: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus, eu confio em ti”.

O segundo momento é a parte central, vai do v. 3 ao 13. Nos v. 3-8, a ação de Deus é apresentada com imagens de guerra. Deus é visto como defensor que livra do laço do caçador e da peste destruidora. Por isso, para quem confia em Deus não há o que temer, nem os perigos da noite, nem os do dia. Basta abrir os olhos para ver o julgamento que Deus reserva aos que são ímpios. O v. 9 reforça o motivo desta confiança ao retomar o que já foi dito na abertura. Nos v. 10-13, o salmo continua descrevendo a ação de Deus com imagens do deserto (tenda, caminho). Aquele que coloca sua confiança em Deus terá que romper caminho difícil, cheio de ameaças, mas haverá anjos guardando os seus passos. Com esta proteção de Deus, poderá pisar até o dragão. Lembra Isaías 11,8; Marcos 16,18 e Lucas 10,19.

O terceiro momento é a conclusão do salmo, v. 14-15. O próprio Deus fala, recordando três atitudes do peregrino refugiado: “a mim se apegou”, “conhece o meu nome”, “ele me invocará”. E cumpre sete ações em seu favor : livrarei , protegerei , responderei , estarei com ele , glorificarei (restabelecer a honra) , vou saciá-lo e farei ver a minha salvação.

b) Qual terá sido o motivo que levou à composição deste salmo?

Sabe-se que, ao longo de sua história, o templo de Jerusalém cumpriu a função de oferecer asilo a refugiados. Aí a pessoa estava protegida. O salmo 91 guarda a memória da experiência de uma pessoa injustamente perseguida que se refugia no templo, ou, ao menos, dorme uma noite na porta do santuário, pedindo a Deus que a proteja e liberte dos perigos que corre.

A composição do salmo parece ser de origem litúrgica, uma espécie de homilia endereçada a alguém que pernoita nos átrios do Altíssimo (v. 1). Quem fala no salmo é um sacerdote, sugerindo ao refugiado uma atitude de confiança no Senhor. Do ponto de vista literário, é classificado como salmo sapiencial, e não de confiança, como parece à primeira vista, visto não ser o salmista que expressa a confiança em Deus e sim outra pessoa. Do ponto de vista histórico, podemos situá-lo depois do exílio, época de instabilidade e deserções, com matizes da literatura sapiencial e apocalíptica, sugerindo o tempo dos Macabeus.

c) Qual o rosto de Deus que o salmo revela?

Procure identificar no salmo os vários nomes de Deus: Altíssimo e Onipotente, Refúgio, Fortaleza, Libertador, Defensor… “Altíssimo” é o nome de um dos antigos deuses de Canaã (El Shaddai). Poderia significar “Deus do céu, ou das alturas, ou dos mais altos montes”. Seria como, hoje, no Brasil, chamar a Deus de Olorum (em língua ioruba: Senhor do Orum: céu). “Todo-poderoso” faz referência a outro nome antigo de um deus tribal. “Refúgio, Defensor” são qualidades evocadas quando o povo chamava Deus de “Rahamin” (Compaixão), nome de uma antiga divindade feminina: “Mãe de amor uterino”. Até na linguagem, o salmo parte da oração dos mais pobres e abre-se ecumenicamente ao modo como o povo ora a Deus.

Conhecer o nome tem uma importância neste salmo, faz alusão à intimidade entre o Deus do Sinai e Moisés. Na última parte do salmo (v. 14-16), as sete ações de Deus em favor do refugiado lembram as ações de Deus em favor do seu povo, no Êxodo. Como no salmo (v.11-12), também no Êxodo (23,20 e 32,34) aparecem anjos cuidando dos passos do caminheiro para que, acima de tudo, a vida seja preservada durante o caminho. É o rosto de um Deus que ouve a aflição e se compadece: um rosto de Deus que é pai e mãe de compaixão.

2- Atualizando o texto

Todas estas informações nos ajudam a ampliar a compreensão do salmo a partir do seu contexto de origem. É uma base importante para perguntarmos:

a) Qual o sentido novo que o salmo adquire lido a partir de Jesus?

No tempo de Jesus, o templo deixou de ser “amparo do Altíssimo” para os necessitados de abrigo. Jesus se faz, ele mesmo, o lugar de refúgio dos pobres, das mulheres perseguidas, das crianças indefesas.

Também podemos identificar esta pessoa refugiada à sombra do Onipotente com o próprio Jesus, totalmente fracassado em sua missão, perseguido, caluniado, mas plenamente confiado na proteção amorosa do Pai. Nos relatos de Mateus (4,6) e de Lucas (4,10-11) sobre a tentação de Jesus no deserto, os versículos 11-12 do salmo 91 são colocados na boca do diabo ao tentar Jesus. Jesus não aceita o serviço dos anjos em favor do diabo e dos seus caprichos. Os anjos estão a serviço do projeto de Deus. De fato, no relato de Mateus (v. 11), depois de ter vencido todas as tentativas do diabo, Jesus deixa-se servir pelos anjos, mas aí a serviço da missão que o Pai lhe confia.

As imagens do salmo nos remetem a momentos de crise em que tudo parece cair aos pedaços… São momentos terríveis, às vezes provocados por situações injustas… mas, qualquer que seja o motivo, o momento da derrota traz em si uma graça, porque nos permite perceber dimensões da vida que não seriam possíveis em condições normais.

Este foi o caminho de Jesus. Dele se diz que “durante sua vida na terra dirigiu pedidos a Deus, com clamores e lágrimas, àquele que podia livrá-lo da morte, e foi ouvido. Embora sendo filho, aprendeu a obedecer através do sofrimento…” (Hb 5,7). Tudo caiu aos pedaços no Calvário, mas ele não desistiu e não entregou os pontos. Foi assim que “ele se tornou fonte de salvação eterna para quem lhe obedece” (Hb 5,9).

b) Dificuldade que o texto apresenta hoje, há muita gente se dando conta de como textos religiosos podem, implicitamente e sem querer, favorecer uma mentalidade guerreira ou excludente. Visto por este ângulo, este salmo contém versículos que podem provocar escândalos. Como podemos, hoje, orar: “Caiam mil ao teu lado, dez mil à tua direita, Deus te protegerá e a ti nada ocorrerá”? Que imagem de Deus temos e testemunhamos?

Historicamente, estes versos referiam-se à peste que assolava e matava multidões. Talvez se referisse mesmo a um incidente concreto, como o que ocorreu com o exército assírio de Senaquerib, cercando Jerusalém. Mas, como explicar isso cada vez que o salmo é cantado em uma Igreja ou rezado em particular?

Algumas comunidades pulam este versículo em sua oração e outras traduzem-no de modo a deixar mais claro que Deus não é indiferente com a sorte de quem está no chão, nem nós podemos ser.

c) Quando e com que sentido este salmo aparece na liturgia?

Na liturgia das horas ele aparece na oração da noite e oferece versos para responsos do tempo quaresmal. No missal romano, é cântico proposto para o primeiro domingo da quaresma. Até hoje, na liturgia da sinagoga, é usado como oração da noite e do sábado.

Na oração da noite, este salmo nos prepara para um sono tranqüilo, livre das insônias, dos pesadelos e do medo da violência e nos reporta a outras noites; quer infundir em nós confiança para vencer a noite escura que, muitas vezes, temos que atravessar em pleno dia, situações nas quais nenhuma luz conseguimos enxergar. O salmo traz em si a promessa de que, mesmo nestas situações, o Senhor está conosco e nos acompanha.

No primeiro domingo da quaresma do ano C, este salmo responde à leitura de Deuteronômio 26,4-10, que relata o mais antigo credo israelita, formulado não em termos de verdades abstratas, mas de recordações de tudo o que Deus fez com o seu povo desde o Egito até a terra prometida, passando pelo deserto.

Admitindo as dificuldades acima mencionadas, o salmo ajuda a assembléia a reconhecer a presença tão próxima de Deus, atuando hoje na vida do povo. Se esta oração vem de uma pessoa perseguida e injustiçada, para rezá-lo bem, é preciso nos colocarmos em comunhão efetiva com a multidão de pobres e excluídos que, hoje, no mundo nem contam com uma porta de templo para dormir. Muitas vezes, nem podem legalmente refugiar-se em um templo. O salmo é uma palavra ou oráculo que um sacerdote ou levita dizia como palavra de ânimo e consolação para quem vinha buscar abrigo e defesa. Ao proclamá-lo na assembléia litúrgica, é importante fazê-lo como uma palavra de consolação a tantas pessoas em situação de angústia e desânimo.

A partir desta chave de leitura, o salmo se abre às experiências da comunidade e até pessoais. Ouvindo o salmo, alguém passando por uma situação de desmoronamento total em sua vida, por qualquer motivo que seja, de repente recebe a palavra do salmo como uma promessa de salvação da parte de Deus. Quem sabe, uma outra pessoa, sentindo-se esmagada sob o fardo de algum tipo de dependência, sinta-se encorajada a buscar uma saída. Em um de seus sermões quaresmais, São Bernardo (1090-1153) dizia: “Entre todos os salmos, não há nenhum outro tão adaptado para encorajar as pessoas tímidas, admoestar as negligentes e instruir quem ainda se encontra distante da busca da perfeição”.

d) Momento individual

Essa experiência comunitária poderá continuar e ganhar maior profundidade na oração pessoal. Lendo e relendo o salmo, você sente que ele fala da sua vida? Alguma vez você já se sentiu perseguido, tendo que escapar para não morrer? Lembra-se de alguém que viveu na pele uma situação assim? Ouvindo as palavras do sacerdote ao refugiado, você se reconhece nelas? Alguma vez você teve a experiência de ver desmoronar tudo ao seu redor e assim mesmo ter ficado de pé? Ou de perceber anjos de Deus te guiando pelo caminho?

Se alguma palavra toca mais fundo em você, detenha-se nesta palavra, deixe-a tomar conta de você, entre na confiança de Jesus com o Pai e faça desta palavra a sua oração.

Uma oração espontânea, ou uma oração sálmica, pode concluir este momento. Por exemplo:

Ó Deus, força dos fracos, tu que nos promete devolver a honra e estar conosco em todos os nossos caminhos, tem piedade de mim. Ajuda-me a tomar o caminho do amor como saída para a minha miséria e fracasso, como fez Jesus, teu filho. Dá ao teu povo que sofre a graça de crer na vitória pela força da páscoa de Jesus, nosso Senhor. Amém.

Texto tirado da Revista de Liturgia, nº 164 março/abril, 2001, p. 30

Sobre manoeloliveira

Gosto de Ler, me relacionar com pessoas e amo profundamente "pregar" a Palavra de Deus para as pessoas, seja na Igreja, no Grupo de Oração e na Catequese. A minha resposta foi "SIM" com sim de Maria, "Eis me Aqui" como todos o que vivem o projeto de Jesus Cristo, devem afirmar! O que serei se não Evangelizar. Amém!
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