E A CATEQUESE, COMO VAI?


Artigo produzido pelo professor de Teologia Mario Antonio Betiato, da PUCPR, como texto de apoio para Curso de Especialização em Catequética, ano 2005.1

1.  À GUISA DE INTRODUÇÃO

A dinamicidade é sem dúvida uma das características mais marcantes do mundo atual. É movimento” o nome da nova ordem. A bem da verdade, a realidade nunca foi estática, porém, nunca foi tão dinâmica quanto agora. É perceptível, no cotidiano da vida, que a palavra estática”, está em desuso. Tudo muda muito, em pouco tempo.
Considerando este pressuposto, o educador, o pastoralista, o catequista, determinantemente deverá estar atento às novas perguntas para poder elaborar novas e eficazes respostas. Do contrário ele corre o risco de continuar dando respostas velhas e ineficazes, para perguntas novas. Daí, no universo da pastoral e da catequese, a necessidade de prestar ouvidos (ob audiere) para os clamores da rua, da realidade dos sujeitos, para que, tanto do ponto de vista dos conceitos, quanto da metodologia, as respostas sejam adequadas ao novo paradigma. De outro modo não haverá eco, será apenas formalidade, cumprimento de uma tarefa sem missão, um “dar conta” do dever institucional, sem o desafio cristão de alcançar a essência evangelizadora proposta pelo mestre Jesus Cristo.

É o que nos propomos neste artigo: refletir o universo da catequese no contexto da mudança paradigmática que o mundo vive, e as conseqüências de uma opção pelo novo. Sem isso, sustentamos que poderá haver uma radicalização conservadora, que em nossa tese, servirá somente para dar um pouco mais de alento para uma realidade já morta, porém ainda sem atestado de óbito oficial.

2.  A CRISE PARADIGMÁTICA

 –  O que é um paradigma
Definimos paradigma como uma matriz disciplinar que sustenta uma concepção de mundo numa determinada época. Um paradigma possui um modelo de racionalidade no qual se incluem todas as esferas, quer científicas, filosóficas, teológicas, ou de senso comum.2
Vivemos hoje sob a égide (e a crise) do paradigma moderno, o qual nasceu com a Ciência Moderna que determinou o modo de ser e agir do ser humano contemporâneo. De maneira larga podemos afirmar que o paradigma moderno, hoje em crise, começou a tomar vulto com o italiano Galileu quando fez os primeiros experimentos que deram origem à racionalidade cientificista que temos hoje. Imediatamente, na Filosofia, soma com Galileu o francês Descartes, e Francis Bacon na Inglaterra. Antes deste modelo, a matriz disciplinar ocidental era da Teologia (Idade Média) que remetia ao transcendente e à metafísica a explicação de tudo.

 A crise do paradigma moderno

A modernidade consagrou a ciência moderna e a razão, e ignorou outras formas de compreensão da realidade como: o saber intuitivo, o saber teológico, a experiência mística, o sagrado, e a catequese e a pastoral se comprometeram com esta postura demasiadamente racionalista e conceitual a qual rouba o espaço do mistério.

Descartes é considerado o pai da filosofia moderna. Descartes rejeitou todo o conhecimento que não podia ser comprovado racionalmente e propôs como verdade somente aquilo que passa pelo crivo do seu método analítico. Galileu, já citado, foi o pai da ciência experimental que resultou mais tarde no cientificismo, que postula que somente a ciência, com seus métodos, é capaz de levar os homens a conhecer as coisas tal como elas são. Para o cientificismo não existe verdade, se não aquela comprovada pelos métodos da ciência. O cientificismo diz que a ciência deve estender-se a todos os domínios da vida intelectual e moral, sem exceção.

“Além de constituir uma representação objetiva da realidade, o conhecimento científico aceita o princípio segundo o qual todo o fato no mundo real possui uma causa no mundo real… ligar um fenômeno real a outro fenômeno real para que a causa apresente o caráter de cientificidade. Sendo assim, ficam fora do domínio científico, não somente a causalidade transcendente (situando a causa do fenômeno fora do mundo sensível), mas a causalidade substancial”.3

Essa exigência rigorosa de causalidade material nem sempre é possível na catequese e na pastoral. Nem sempre as causas podem ser explicadas e, no entanto o mistério pode ser experienciado. O princípio cientificista poderá ser válido para a Biologia, porém, o ser humano não é somente um ser biológico. As ciências naturais, por possuírem objetos definidos, construíram suas epistemologias com bases em objetos sólidos, e a fé, a Teologia, então, viveram, na modernidade, um certo exílio epistemológico.  

“Nesta concepção a ciência caracteriza-se por ser instrumentação técnica, de teor formal, com vistas a dominar a realidade, sem, porém, discuti-la. O papel do cientista é estudar, pesquisar, sistematizar, teorizar, não intervir, tomar posição”.4

 O pós-moderno e o etern

A pós-modernidade tem como mãe a crise da modernidade racionalista, seja na catequese ou em qualquer outro meio. Crise porque a realidade é sempre maior e mais profunda do que aquilo que dizemos dela. E no caso da catequese, a verdade sobre o mistério cristão, teima em não se deixar aprisionar pelos conceitos racionalistas, nem pela exegese, nem nas doutrinas e formulações que procuram reduzir o mistério ao raciocínio lógico.

Essa crise da modernidade que alcança todas as esferas da vida chamamos de crise paradigmática. A crise é generalizada. Situa-se na esfera da Economia, da Política, da Religião, da Educação, do Meio Ambiente, e nas ciências todas. Vivemos numa crise que aponta para um retorno à valorização das eternas perguntas fundamentais da existência: quem somos? O que é a verdade? Para onde vamos? Qual o sentido de tudo o que temos, fazemos e somos? Essas e outras perguntas são as que mais fazem sentido e são exatamente essas que a catequese e a pastoral tem mais dificuldades em responder.

Os catequizandos têm sede de Deus, do mistério pascal, e os catequistas, por vezes, fartos de exegese e doutrina, são incapazes de provocar encantamento, com suas formulações acabadas, e buscam mais formulações ainda. É a ditadura dos conceitos. A isso sim nós chamamos de “senso comum”: a incapacidade de perceber que as perguntas mudaram.

3. AS IMPLICAÇÕES DE UMA MUDANÇA DE PARADIGMA NA CATEQUESE

–  Os últimos suspiros de uma catequese “moderna” 

Chamo de catequese “moderna” aquela concepção, digamos, ainda tridentina, de reafirmar os tratados teológicos, de memorização de documentos eclesiásticos, de especulação exegética, sem atingir o endereço certo: o “coração” do catequizando. Temo que a aplicabilidade que muitos teólogos fazem do Concilio Vaticano II, pouco tem de diferente do catecismo pré-conciliar de perguntas e respostas. Mudou o assunto, mas o raciocínio é semelhante. É a predominância do método dedutivo, que parte do geral, da doutrina, dos enunciados da fé, esperando que isso produza conversões. Sem ser excludente, o universo pós-moderno, reclama o método indutivo, isto é, a reflexão deverá partir do particular, da experiência e inquietações do catequizando, para, a partir delas, num segundo momento, confrontar com as verdades fundamentais da teologia ou da doutrina. A pessoa, na sua realidade, nas suas circunstâncias é que deverá se tornar o referencial para o que vem depois.

“O método indutivo não exclui, antes, exige o método dedutivo, que explica e descreve os fatos, a partir de suas causas. Mas a síntese dedutiva terá pleno valor somente quando tiver sido realizado o processo indutivo”.5

–  Os primeiros respiros de um novo paradigma 

O documento Catequese Renovada (CNBB número 26 – 1983) bem como o Diretório Geral para a Catequese (Congregação para o Clero – 1997) e o novo Diretório Nacional de Catequese (em fase de publicação), não podem ser traídos com simples referências bibliográficas para discursos obsoletas. É preciso entender a epistemologia desses documentos, sem adequar os mesmos a antigos paradigmas.

Uma boa síntese do Documento Catequese Renovada pode muito bem se resumir em: Pedagogia de Deus, Catequese Cristocêntrica, Catequese como Iniciação ao Mistério da Fé, em Comunidad e. Nessa singela síntese que fazemos, não nos parece que o “conteudismo” doutrinal, a exegese bíblica ou os documentos eclesiásticos sejam a primeira ou única força motora no processo. É a dimensão querigmática que chama atenção no documento citado: o primeiro anúncio, a experiência do ressuscitado, a revelação de Deus na liturgia da vida, antes que na doutrina sistematizada ou na teologia. É aqui que a catequese encontra sua natureza que é a reflexão sistematizada da experiência do ressuscitado, a partir da experiência pessoal e não a partir de conceitos pré-elaborados. Sem experiência não há objeto para a reflexão, pois os conceitos a serem refletidos são sempre conceitos sobre alguma coisa e esse “algo” é a experiência.

“Na catequese, quando se fala em conteúdo, pensa-se em geral na doutrina e na moral. Esta visão afeta todo o encaminhamento do processo catequético. Mensagem é comunicação de algo importante. João Paulo II afirmou enfaticamente: ‘Quem diz mensagem diz algo mais que doutrina. Quantas doutrinas de fato jamais chegaram a ser mensagem. A mensagem não se limita a propor idéias: ela exige uma resposta, pois é interpelação entre pessoas, entre aquele que propõe e aquele que responde. A mensagem é vida. Cristo anunciou a boa-nova: a salvação e a felicidade. Bem-aventurados…”.6

Migrando dos documentos eclesiásticos para a catequese, nos quais nos sustentamos, podemos também nos apoiar na produção teológica recente, que também, de maneira inteligente, para além do senso comum, soube interpretar o cerne do desafio na catequese. No livro Repensar a Cristologia, para dar um só exemplo, o autor, ao falar da relação entre Teologia e Ressurreição, argumenta:

“Ainda que tenha suas raízes na história e não afaste os apoios do raciocínio, sua força e segurança vêm de seu âmbito específico. Por isso também agora nossa reflexão, uma vez pagando o justo e indispensável tributo à responsabilidade intelectual, mostrando sua capacidade de ‘responder’ às críticas e preservando assim a dignidade humana do ato religioso, deve voltar à sua raiz originária: a fé”.7

Porém, creio que ainda antes do paradigma moderno, ou antes, da radical guinada jurídica do Concílio de Trento (1565), uma das raízes da controvérsia que estamos trazendo para o debate, o racionalismo teológico, está no “cristomonismo” ocidental8. É um conceito, que absolutiza Jesus em detrimento ao Espírito Santo e à Trindade. A conseqüência de uma Teologia centrada no Jesus Cristo Glorioso e pouco trinitária, é o clericalismo e o logocentrismo (Cristo – Logos – Verbo – Razão – Racionalismo Teológico). Esta concepção teológica possui muito de “luminoso” (iluminismo – deusa razão) e pouco de “numinoso” (mistério – inefável – sagrado).

O clericalismo é fruto direto do cristomonismo, pois, se a Trindade foi reduzida a Cristo, e ao Cristo da glória, é natural que, na Igreja, o clero, casta composta  só de varões, tenha se arvorado em detentora exclusiva do monopólio do sagrado, e seus membros como “legítimos” representantes de Cristo glorioso. Numa Igreja mais pneumática e trinitária isto não teria acontecido, pois a idéia de um Espírito e uma concepção eclesial mais comunitária, imagem da Trindade, não o teria permitido.

O logocentrismo também é filho do cristomonismo. Se o Cristo é o Logos e o Logos é razão, é natural que tenhamos nos encaminhado para uma Igreja racionalista, onde a correta aplicação dos sacramentos, a correta interpretação dos dogmas, o legalismo, contam mais que a criatividade, que a afetividade, que a liberdade. Ao exilar o Espírito, perdemos a liberdade, pois dizia Paulo: ”onde há o Espírito, aí há liberdade”9. A Teologia precisou então preencher o vazio com um outro espírito, o espírito do logos e daí a ditadura da razão.

Queremos sustentar que o ponto de partida da fé não é a doutrina, nem as especulações teológicas, nem os mitos, nem as verdades científicas. A fé nasce do encontro, da experiência do mistério (numinoso) e este é o fundamento de toda a catequese. Tudo o mais é complemento. Em recente artigo no jornal Gazeta do Povo, D. Moacir José Vitti, Arcebispo Metropolitano de Curitiba, afirma:

“A fé é uma adesão pessoal a Deus e, ao mesmo tempo, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou. Ela é um dom divino, mas também uma atitude humana”.10

Para aderir é necessário conhecer, pois ninguém ama aquilo que não conhece. Para conhecer é preciso encontro e esse encontro é pessoal e inefável. Esta, em nossa opinião é a chave para a catequese. Não seria por isso, que muitas vezes, catequistas sem nenhuma teologia, sem nenhuma formação sistemática, são instrumentos eficazes de santidade, enquanto que os filósofos e teólogos fracassam em sua missão? Não terá sido este o segredo de S. João Maria Vianey? De S. Marcelino Champagnat? De Madre Tereza? – Os santos citados nos parece que “tiraram as sandálias” e, antes de tudo, se renderam ao mistério.

4.  CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não tenhamos medo do novo. Deixemos o Espírito Santo guiar a Igreja e a História. É mais fácil nos acomodarmos nas certezas do raciocínio lógico do que “tirar as sandálias” para abraçarmos um novo paradigma. Atualmente, este, poderá ser considerado “o pecado do mundo”: a demasiada confiança na racionalidade das teses argumentativas. Catequese é uma outra coisa. É uma reflexão sistematizada, sim, porém, uma reflexão que brota da experiência e do deserto, lá onde os ídolos se esfacelam. A catequese começa com um salto no escuro para os braços do misterioso Pai.

Mario Antonio Betiato
Setembro de 2005
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1 Neste artigo, abdico de expor meus títulos acadêmicos e me identifico como catequista que sou, há vinte e cinco anos.
2 Sobre esse tema sugerimos a leitura do livro: As estruturas das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn. Editora Perspectiva. São Paulo, 1994.
3 JAPIASSU, Hilton. Introdução às Ciências Humanas São Paulo: Letras e Letras, 1994. p. 32.
4 DEMO, Pedro. Metodologia científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1992. p. 23.
5 Diretório Geral da Catequese número 150 (aquilo que está em negrito é nosso).
6 Diretório Nacional da Catequese número 107
7 QUEIRUGA, Andrés Torres. Repensar a Cristologia. Sondagens para um novo Paradigma. São Paulo: Paulinas, 1998.
8 Cristomonismo é uma expressão que surgiu na Igreja Ortodoxa ( Y Losky e N. Nissiotis ) e foi retomada por vários teólogos ocidentais como: Karl Barth,Yves Congar, Martinho Lutero (Solus Christus).
9 Confere Carta aos Romanos Capítulos 7 e 8 onde Paulo argumenta que o legalismo mata e o Espírito vivifica.
10 Gazeta do Povo, Curitiba, 17 de julho de 2005, pg. 27. 

Sobre manoeloliveira

Gosto de Ler, me relacionar com pessoas e amo profundamente "pregar" a Palavra de Deus para as pessoas, seja na Igreja, no Grupo de Oração e na Catequese. A minha resposta foi "SIM" com sim de Maria, "Eis me Aqui" como todos o que vivem o projeto de Jesus Cristo, devem afirmar! O que serei se não Evangelizar. Amém!
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